Tony pulava do “TRAPICHE” sem saber nadar…

Eu e o Tony temos muitas histórias para contar; passamos as fases de infância, juventude e adulta, sempre juntos.

 

 

Estudamos o “Primário”, o “Ginásio” e o “Segundo Grau”, nas mesmas escolas e na mesma série. Em 82, eu e mais 8 bagunceiros, fomos reprovados no último ano do Colégio Agrícola de Manaus e em 83, Tony virou Extensionista Rural da EMATER/AM e eu fui concluir meu curso na Escola Agrotécnica Federal de Cuiabá/ MT. Meu tio, Luiz Soares de Medeiros era o diretor da escola mas aqueles 3.106 km de distância, faziam com que, todos os dias, após as 18 horas, eu sentasse na calçada do alojamento e chorasse compulsivamente com saudade do meu irmão querido. Estava alí na Vila de São Vicente, no alto da serra, há 800 metros acima do nível do mar, clima maravilhoso, excelentes professores, novos amigos, cercado de carinho do tio Medeiros e da tia Danares mas quando eu olhava para a BR 364, sentia vontade de deixar tudo de lado e voltar pra casa. Os conselhos do meu pai eram decisivos para a minha permanência na Escola; eu era o grande responsável pela mudança brusca na minha vida e somente eu podia resolver tudo aquilo. Nossa história familiar é linda; cheia de momentos maravilhosos, emocionantes, tristes, alegres, de muitas lutas, muitas aventuras e muita superação. Tony sempre foi meu Anjo da Guarda; sempre suportou meus excessos, minha aspereza e minhas precipitações; sempre foi paciente e me orientou quando eu me setia perdido na hora de tomar uma decisão e até hoje moramos juntos. Me perdoe meu irmão pela minha dureza e pela minha ingratidão. Assumo que fico burro quando fico com raiva e as vezes não consigo medir as palavras quando preciso ser sincero. Quero também pedir perdão, antecipadamente, pela história que vou contar agora; sei que você não gosta de relembrar mas, EU VOU CONTAR!.
*****TONY tinha uma cara de comportado mas dona Geny Medeiros sempre dizia: Esse menino é “SONSO”. Ela tinha razao!. Ele se equilibrava em pé com a bicicleta em movimento; corria por cima de muros; pulava do “TRAPICHE” sem saber nadar; fugia para pescar e ninguém o fazia desistir de “APARAR” papagaios de papel que caiam no Aninga, Macurani ou Parananema. Quando nossa mãe saía para trabalhar, Tony aproveitava, reunia alguns amigos e “PERNAS PRA QUE TE QUERO”. O itinerário era esse: atravessava o campo de AVIAÇÃO; passava pelo campo do SANTIAGO; abastecia os bolsos nos puruizeiros; fazia um SINAL DA CRUZ debaixo daquele cajueiro que encontraram um homem enforcado e seguia um estreito caminho que o levava às águas do “ROPOCA”. Aquele lugar também era o preferido das lavadeiras; elas deixavam seus filhos “PULANDO N’ÁGUA”, enquanto trabalhavam para sustentar suas familias. Tony tinha 10 anos mas era o mais danado da turma; tomava banho sem roupa para não chegar em casa com o calção molhado e mergulhava de olhos fechados para evitar irritação nos olhos e ser descoberto. Um dia fui intimado pela nossa mãezinha para raptar o calção do FUJÃO; nao podia negar ao pedido, dona Geny quando dizia: hoje vocês vão dormir de “COURO QUENTE”, nem o Zé Rolim nos livrava. Então, como nao tinha outra alternativa, fui lá e executei a Missão. Tony ficou das 9 da manhã até as 17 hs de molho; tentou emprestar o calção do GIBI mas teve o pedido negado; seu maior desespero era ver o sol se despedindo, a noite chegando, seu corpo sofrendo de hipotermia e o pintinho, coitado, de tanto frio e vergonha, sumindo entre os OVOS. Quando tudo parecia perdido, apareceu por lá, seu primo Henrique Medeiros que saiu correndo e em poucos minutos voltou com um calção na mão e o socorreu. Quando chegou em casa, estava roxo de frio e morto de fome; dona Geny olhou, sorriu e disse: Isso não foi pra matar, foi para você aprender a não desobedecer.Até hoje, quando conto esta história, ele fica zangado, morde os lábios, franze o rosto e me chama de “CAGUETA”.

 

Inaldo Medeiros

Colaborador JI

Foto: Ilustração Internet