Finalista do Peladão a Bordo será Rainha de Bateria da escola Grande Família

Arleane sempre brilhou em concursos de beleza. Foto: Antônio Lima

 

Ela foi Rainha do Peladão Indígena, é Rainha de bateria da Escola de Samba Grande Família e mostrou o seu brilho na última edição do Peladão a Bordo – o Reality. Mas a vida de Arleane Marques, 27, é bem mais do que se imagina.

Nascida na aldeia indígena de Bela Vista, no Alto Castanho, Arleane fala com orgulho da história da sua família.

“Minha bisavó se casou com um índio, e o local onde eu nasci foi demarcado como terra indígena porque, como diz a história, os Mura viviam em torno do Rio Madeira, e minha aldeia foi reconhecida como território indígena. Minha bisavó tinha um medalhão, que pertencia ao seu esposo e, com isso, descobriram que todos nós temos sangue indígena”, ressalta ela.

Só que, aos sete anos de idade, Arleane passou por uma mudança drástica na sua vida. “Eu e minha irmã saímos da aldeia para estudar e, na cidade, acabamos perdendo muitos dos nossos benefícios como índios, mas preferimos sair para irmos em busca o nosso melhor”, afirma. Mas, em Manaus, ela não teve uma infância fácil.

“Minha irmã foi trabalhar na casa de uma mulher que minha mãe mal conhecia, e eu vim logo depois. Sempre morávamos de favor para sobreviver”, relembra.

Apesar de ter crescido longe da aldeia onde vive sua família, Arleane nunca esqueceu suas origens.

“Sempre trago comigo essa bandeira indígena, mas, pelo fato de eu ser alta e dos olhos claros, sofro preconceito das pessoas, que não acreditam que eu sou índia, mas eu tenho meu rani (Registro Administrativo de Nascimento Indígena), e gostaria de mostrar que os índios são capazes de fazer tudo que desejarem fazer”.

Concursos
Foi assim, acreditando na sua beleza, que Arleane venceu o concurso de Rainha indígena do Peladão 2007, representando o time Manaós. “As pessoas não acreditavam em mim como indígena, mas quando eu ganhei o concurso, passaram a me conhecer mais”, relembra. Na época, Arleane já era modelo, mas  foi seu primeiro concurso de beleza. “Foi bem diferente, até porque representei a minha raça” destaca.

No ano seguinte, em 2008, Arleane se destacou em mais um concurso. Dessa vez, ela foi a escolhida para ser a representante do Amazonas, em São Paulo, no concurso nacional da TV Record, ‘Beleza na comunidade’. “Teve toda uma repercussão. Lembro que meu apelido virou Índia, e tinham curiosidade por não saber muito daqui”, disse ela, que viveu um ano em São Paulo, dividindo quarto com outras meninas e atuando como modelo, após o concurso. “Isso me ajudou a ser a pessoa que eu sou hoje”, afirma.

Os anos passaram e Arleane conta que decisões erradas a distanciaram da carreira de modelo. Mas, a bela moça achou que era hora de voltar aos holofotes, em 2017.

“Quando resolvi participar do Peladão de novo, foi porque eu queria resgatar o meu título de Rainha do Peladão indígena, e mostrar que as índias também têm sua beleza. As pessoas têm uma visão meio distorcida, e pensam que elas não têm vaidade. Queria mostrar que todas as belezas têm seu espaço, não só as indígenas, brancas, negras, mas as meninas de periferia, como eu também sou”, afirmou Arleane, que vive no bairro São José desde criança.

Experiência no Peladão

No reality, Arleane admite que jogou. “Saí sem nenhum voto e, em nenhum momento, eu ia para a boia. Foi muito legal conviver com as meninas, fiz amizades verdadeiras, criamos laços fortes, mas confesso que, na primeira semana, eu as estudei, pois percebi que cada uma era uma personagem que tinha passado pela minha vida, tinha a que se achava mais bonita, a barraqueira, então, eu sabia lidar com cada uma lá dentro, porque já tive que lidar com pessoas assim aqui fora”, explicou.

Para ela, sua participação valeu a pena. “Não entrei para ganhar o Peladão porque eu já sabia quem estava mais preparada, e acertei, a Juju ganhou. Eu queria mesmo ganhar visibilidade porque sou esteticista, e sabia que qualquer destaque positivo, me ajudaria. Foi o pontapé inicial para o espaço de beleza que estou abrindo, para a carreira que quero seguir”, enfatizou.

Arleane também ressaltou que não esqueceu em nenhum momento que estava num reality.

“Sabia que tinha uma imagem a preservar, a minha família, etnia e minha escola de samba a respeitar, e evitei falar muito, e sempre dizia para as meninas que eu não era peixe para morrer pela boca. Não desrespeitei ninguém”.

Futuro
Após o Peladão, Arleane, que é esteticista, aposta no espaço de beleza que está abrindo. Ela também sonha com seu casamento, em que quer fazer algo bem diferente, trazendo a sua escola de samba para a festa, e também quer formar uma família.

“A família que eu não tive, por necessidade de buscar algo melhor, quero ter agora”, afirma.

Hoje, Arleane brilha como Rainha de bateria da Grande Família

Arleane sempre frequentou a Grande Família, e disse que desde cedo tinha o sonho de ser rainha de bateria da escola, título que possui desde o ano passado.

“Eu ficava no fundão, e falava para os meus amigos que um dia eu estaria à frente dessa bateria, e eles riam de mim porque sempre fui magra. Eu via as meninas, e me imaginava no lugar delas. É por isso que no reality eu entendi que precisava ser um exemplo para as pessoas, ser rainha é você despertar numa criança a vontade de ser aquilo”, destacou ela.

Arleane foi convidada a participar da Escola em 2013, depois virou musa, até conquistar seu lugar como rainha.

“Também participei de um concurso para ser rainha da escola, então, tudo para mim, foram grandes desafios”. Arleane afirma que quer seguir na Grande Família por muito tempo. “Meu próximo sonho é me tornar porta-bandeira, depois ser rainha da escola, ala das baianas, velha-guarda, me fincar aqui, vivo isso como ninguém”, finaliza ela, dizendo que o carnaval sempre foi uma válvula de escape e ajudou a esquecer os problemas que passou na sua infância e adolescência.

 

Jéssica Santos/ACRITICA.COM