Massilon de Medeiros Cursino*
Quando foi noticiado o catastrófico terremoto que assolou o Haiti, de imediato pensei na dor daquele povo que há muito já sofre com a miséria, com conflitos internos e outras desgraças.
Procurei saber informações de um amigo que ali está servindo numa força especial de paz. Àquela altura já circulava a notícia que ele estava bem. Nada obstante, busquei contato com sua esposa que confirmou que o mesmo saíra ileso da grave tragédia que vitimou um número que equivale ao dobro da população da cidade de Parintins.
Dias depois, em passeio por Manaus, folheando um jornal dentro de um táxi deparo com a foto do amigo militar. A manchete trazia uma frase que traduzia e sintetizava o sentimento de uma pessoa a serviço de uma causa: “Estamos resgatando nossos amigos”.
Fiz questão de mostrar aquilo ao taxista e orgulhosamente lhe disse que aquele militar era meu amigo de infância e meu conterrâneo. Arrepiei-me só de lembrar que o mais franzino dos amigos estava em meio de uma tragédia, agindo como gigante. Ao sentir que o taxista pouco se interessou pelo assunto, dobrei o jornal e deixei para terminar de lê-lo em outro local.
Cheguei na casa onde estava hospedado ansioso para mostrar a todos que meu amigo Algenor Filho (foto), o “Kaika” era um herói. Um guerreiro que não abandonou o posto e continuava empenhado em salvar vidas. Ao abrir a porta da casa, encontro todos diante da televisão assistindo ao BBB 10. Eles discutiam sobre quem iria ao paredão e quem seria imunizado. A prova de resistência definiria quem seria mais forte e obstinado. Sem nenhum esforço descobri até que o Serginho e o Dicesar haviam pedido ao Elieser mostrar suas partes íntimas.
Fiquei reflexivo, meditando sobre os valores. De um lado o capitão que após uma tragédia persistia trabalhando entre escombros arriscando sua própria vida. Do outro, os “heróis” da ociosidade que estão numa confortável casa do Reality Show Global, comendo, bebendo, dançando, malhando, fofocando, traindo, expondo suas privacidades ao público para se tornarem estrelas. E o público pagando para ligar e opinar quem sai e quem fica.
Que bom seria se ao menos a arrecadação de um paredão, onde são feitas em média 15 milhões de ligações, fosse utilizada em prol de seres humanos entregues à própria sorte no Haiti!
* O autor é Economista, Bacharel em Direito, membro da Academia Parintinense de Letras e colunista JI